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O tempo e a nossa urgência

Por: Joselene Alvim
08/06/2026 às 08:00
Tempo
Tempo Foto: Veri Ivanova

         Lulu Santos, em uma de suas composições, Tempos Modernos, escreveu: “Hoje o tempo voa, amor, escorre pelas mãos”. Embora gravada na década de 1980, a música permanece muito atual, pois expressa o que sentimos diante da passagem dos dias.

            A sensação de que “o tempo está passando rápido demais” ronda nossa mente, não sem causar certo espanto. Inevitavelmente, somos levados a refletir sobre nossas escolhas, planos pessoais e profissionais, muitas vezes acompanhados da incômoda impressão: a de que não saímos do lugar. 

                Grande parte dessa percepção está relacionada à nossa rotina, marcada pelo cansaço, pela pressão e pelo estresse. Nosso cérebro, para dar conta do excesso de demandas, passa a realizar as tarefas de forma automática, com pouco envolvimento emocional e sem pausas, o que reforça a sensação de estagnação. 

            Diante desse cenário, surge a necessidade de reorganizar a vida, rever prioridades e estabelecer novas metas. No entanto, esse movimento, que deveria trazer motivação, pode tornar-se um gatilho para a ansiedade - especialmente em uma sociedade marcada pela pressa, pelo excesso de tensões e pela constante busca por resultados imediatos. 

            Nesse contexto, perguntas como “Será que vou conseguir?” passam a ocupar nossa mente, principalmente quando lembramos que, em tentativas anteriores, já prometemos mudanças, mas não avançamos. Tais lembranças desencadeiam sentimentos de frustração e fracasso, alimentando ainda mais a ansiedade. 

            É aí que surge o problema: quando a ansiedade se torna excessiva, ela afeta não apenas o humor, mas também a concentração e o desempenho. Somada à pressão por mudanças rápidas, ela se transformar em desânimo e pode nos levar a desistir. 

                Por isso, talvez, o problema esteja na forma como avaliamos nosso caminho. Nem todo início precisa ser perfeito. A busca por respostas rápidas pode ser prejudicial, tornando-nos, muitas vezes, nossos próprios inimigos. 

            No fim das contas, não se trata apenas de cumprir as tarefas de olho na linha de chegada, mas sim ter mais consciência do processo. Quando focamos apenas no imediatismo, tudo vira urgência. Com isso deixamos de perceber o que acontece ao nosso redor e, inclusive, dentro de nós - como a necessidade de repensar escolhas. 

            Aproveitar a vida, principalmente por meio de coisas simples e das pausas, é fundamental. Afinal, como canta Lulu Santos na mesma canção: “vamos viver tudo que há pra viver, vamos nos permitir”.Créditos: Joselene L. Alvim-psicóloga

 Joselene Alvim
Joselene Alvim
Jô Alvim é psicóloga clínica. Mestre em Educação (UNESP). Especialista em Neuropsicologia (USP). Apaixonada por comportamento, é professora de graduação e pós-graduação.